8 de janeiro de 2014

Frances


Um geração é a antítese de sua predecessora. Ao que parece, simplesmente temos essa necessidade de provarmos que somos diferentes de nossos pais. Hoje, queremos correr atrás dos nossos próprios sonhos, seguir nossa vocação - ao contrário da ideia difundida há pouco tempo de que para ser feliz era preciso ter uma carreira estável dentro de uma empresa. Mas nem todos nós conseguimos. Nem todos são artistas talentosos, que fazem as escolhas certas e se tornam bem sucedidos. 

Frances Ha é um retrato de grande parte dessa geração que fracassou ao correr atrás do próprio sonho. A personagem título do filme de Noah Baumbach vive em Nova Iorque e sonha entrar para a equipe principal do grupo de dança do qual participa. Mas ela vê sua vida empacada, enquanto as pessoas a sua volta estão supostamente amadurecendo. Filmado em P&B, o longa tem uma trilha sonora respeitável: Rolling Stones, Paul McCartney, David BowieBach, Mozart e por aí vai.

A comparação com a série Girls é inevitável. Ambas falam de uma jovem que vive em NY e não tem muitas perspectivas na vida. Curiosamente, o par romântico de Hanna (personagem de Lena Dunham no seriado da HBO) é interpretado pelo mesmo ator que faz o namorado de Frances. Pode parecer idiota, mas, em certos aspectos, o longa também me lembrou Fight Club. Tanto o protagonista do filme de Baumbach como o de David Fincher são fracassados. Mas enquanto Jack está insatisfeito com suas decisões porque se sente enganado pela mídia/sistema/etc, Frances - apesar de momentâneas insatisfações - reage como se estivesse tudo ok. Afinal, ela faz o que pode.

Entre uma geração e outra, eu fico com a de Frances.

5 de janeiro de 2014

Sonho cult


#1
The Dreamers, filme de Bernardo Bertolucci, sabe do que a gente gosta: referências. A todo momento o diretor italiano joga na tela diálogos e cenas semelhantes a alguns clássicos do cinema. 

Para isso, ele conta a história de um jovem americano que vai à Paris estudar francês. Envolve-se, então, com dois irmãos (Isabelle e Theo) que têm uma relação meio bizarra (levando em conta o parentesco), com brincadeiras de cunho sexual. Os três tem em comum a paixão pelo cinema, que se torna uma desculpa para o diretor inserir referências a filmes como Bande à PartLa Chinoise.

No campus onde estudo, há três estereótipos divididos de acordo com as habilitações em comunicação: os relações públicas têm um gosto musical diferente do resto: ouve sertanejo; os publicitários são descolados e artísticos; os jornalistas são cults, gostam de fazer referências a cultura pop ou não. 

The Dreamers é mais ou menos o sonho da galera de jornalismo: ir pra frança estudar a língua nativa e recriar cenas de filmes do Godard com os amigos. Excluo se envolver com uma mina que curte incesto com o irmão - não que com uma tia fosse ok. Incesto nunca é legal.

#2
"Um livro por dia" é um relato de uma viagem de Jeremy Mercer, um jornalista americano que vai para a França e passa uma temporada na livraria Shakespeare and Company. A história aqui é menos romântica: Mercer passa a morar em Paris mesmo não tendo dinheiro, ficando hospedado na livraria, onde também passa a trabalhar. A S&C é famosa por oferecer estadia gratuita a escritores iniciantes do mundo inteiro.

O livro é bom, mas sempre que começo a ler uma obra recente e desconhecida rola aquele sensação de que eu poderia estar lendo algo melhor. Tenho certeza que há um lugar no inferno reservado àqueles que preferem Dan Brown a Asimov, por exemplo.


2 de janeiro de 2014

Vai ter Copa


As manifestações de 2013 despertaram a sensação de que é possível ser ouvido. Ainda que a pauta tenha se esvaído por causa da cobertura tendenciosa da grande mídia, agora há toda uma nação que acredita no poder de sua voz. Para a população, fica cada vez mais claro que não temos condições de sediar a Copa do Mundo e que um evento desse porte deveria estar longe de ser uma prioridade para o país.

Em páginas no Facebook de Coletivos, é replicada a mensagem "Não vai ter Copa". Mas vai ter, sinto muito. Porém, haverá também uma onda de protestos e, com isso, muitas discussões políticas. Daí talvez venha o maior legado do mundial no Brasil.


1 de janeiro de 2014

Rumos para 2014

Discordo de quem afirma que série Girls é feita para um público feminino. Acho que essencialmente o seriado não é sobre uma jovem e suas amigas, mas sobre uma pessoa que tem uma vida instável, em todos os aspectos.

Quando fui na Feira da Profissões da UFPR, fiquei impressionado com a quantidade de vestibulandos que me perguntavam o que eu pretendia fazer depois da faculdade. Minha resposta telepaticamente era sempre "você nem entrou no curso e já está planejando a vida depois da faculdade?".

Planos a longo prazo: não trabalhamos. Porém metas para serem cumpridas em um ano são mais fáceis. Nunca ambiciosas demais se você tem noção da própria capacidade. As minhas são estas:

Escrever mais - parece inteligente que, como estudante de jornalismo, eu aprenda a escrever de uma maneira que não envergonhe meus colegas da área. A ideia é colocar no papel (no word, evernote etc) tudo, tudo mesmo. Ainda que não venha a ser publicado.

Voltar a fazer teatro - parei em junho do ano passado. Não me fez tanta falta até agora, mas a vontade de subir num palco está voltando aos poucos. 

Estar mais conectado - parece bizarro que, enquanto todo mundo promete usar menos as redes sociais, a promessa aqui seja o contrário. A verdade é que a internet é uma parada essencial para o jornalismo e que dependerei dela durante toda minha carreira. Então, acho que não faz sentido querer me afastar dela. 

Aprender a fotografar - tive aulas de técnicas básicas de fotografia na faculdade. Mas seria legal aprender a tirar fotos que não deem vergonha de postar aqui no blog. :~~

Não foi eu quem tirou - Hanna Eliasson - CC

31 de dezembro de 2013

O último dia

Renan dizia para si mesmo que seria mais condescendente com Luana, sua noiva. A relação havia se desgastado nos últimos meses, mas ele não queria jogar tudo para o alto com o casamento se aproximando. 

Luana dizia que não seria mais a mesma. Perderia 4 quilos e seria mais simpática com desconhecidos que não eram desconhecidos. Essa categoria de pessoas que não são seus melhores amigos, mas fazem parte de seu cotidiano - como o porteiro, dizia ela. Cumprimentaria o porteiro pela primeira vez logo no dia seguinte. 

Jurandir, o porteiro, pediria demissão no dia seguinte. Achava um absurdo ter que trabalhar até às 7 horas da noite do dia 31. Havia recebido uma proposta de um emprego que permitira que ele ficasse mais tempo com sua filha adolescente. 

Aline, como toda adolescente, sabia muito bem o que faria da vida. Dizia que fugiria com o namorado, ignorando os conselhos da professora, que parecia se importar muita mais com sua vida do que seu próprio pai.

Apesar de ser professora e ter o costume de aconselhar seus alunos, Luciana não tinha a menor ideia do que fazer da vida. Agora, só tinha uma certeza: deixaria de lecionar para descobrir sua verdadeira vocação. A única coisa que a chateava era que, para fazer isso, teria que pedir um empréstimo ao seu irmão, Renan.

Prestes a se casar, Renan construíra uma carreira sólida como advogado. Naquele fim de ano, reunirá seus amigos mais próximos para comemorar a chegada do ano novo. Agora, observava todos inquietos conversando do outro lado da sala. Calado, via naquela agitação uma certeza: amanhã seria diferente.

♫ Camera Obscura - New Year's Resolution ♫